Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

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"O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e mudar o final."

A primeira vez que ouvi sobre esse livro foi através do canal da Bel Rodrigues, e escutando o relato dela sobre o livro fiquei chocada em saber que nunca tive conhecimento sobre esse período do Brasil. Algumas semanas se passaram e o site Amazon colocou este livro com desconto e acabei comprando. O livro finalmente tinha chegado, quando comecei a folhear me deparei com imagens tão fortes, que fiquei parada olhando sem reação.

Sempre fui muito emotiva, choro com qualquer coisa. E quando olhei para a quela foto, comecei a chorar sem perceber, só me dei conta que estava chorando quando minha vista ficou embaçada pelas lagrimas.


Esta foto foi a primeira que olhei assim que abri o livro, nela está Silvio Savat confundido com um cadáver.

Daniela Arbex faz uma minuciosa pesquisa sobre o que acontecia realmente com os pacientes do hospital. De onde vinham, como chegavam até lá e qual era o tratamento realizado. Aquelas pessoas que não se adequavam para a sociedade: alcoólatras, prostitutas, meninas grávidas que foram estupradas por seus patrões, esposas cujos maridos queriam viver com a amante, tímidos,… esses eram considerados loucos e despachados em um trem para o Hospital Colonia.

Um trem que fazia viagens sem volta - Os considerados "LOUCOS", eram colocados em um vagam de trem que continha escrito "Vagam de loucos". Nesse vagam iam mulheres, homens, crianças, numa viagem de dias sem comida e água. Quando chegavam eram divididos e encaminhados para os pavilhões, homens para um lado e mulheres para outro.

O Colônia tinha o foco na cura de tuberculosos pelo fato de ser localizado acima das linhas das montanhas. Era um local ideal para isso. Anos após a inauguração passou a receber pacientes com problemas psiquiátricos. A partir da década de cinquenta o Colônia passou a receber as pessoas tidas como “indesejáveis”.

Estima-se que setenta por cento dos internos que morreram não tinham nenhum tipo de problema. Bastava um papel assinado por um médico, delegado, etc, para que a pessoa fosse internada. Esses “doentes” chegavam de todos os Estados através de uma linha férrea que era conhecida “carinhosamente” de Trem de Doido.

“Alguns morriam de frio, fome e doença (…) Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, diante dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.”

Posso ficar aqui falando horas para cada um de vocês, os tipos de horrores que essas pessoas param dentro daquele lugar. O mais revoltante é saber que todos sabiam do que estava se passando, foram feitas reportagens, documentários da época, mas depois que todo o murmurinho passou tudo continuou da mesma forma. Eram quase 20 mortes por dia, corpos que eram vendidos para universidades, corpos que foram colocados em acido no pátio com todos os pacientes olhando aquela cena. E sabe porque isso foi feito? porque o cemitério não tinha como comportar mais corpos.

Isso mesmo, CEMITÉRIO. A coisa era tao fora de série que o hospital tinha um próprio cemitério. Todo dia, uma, duas ou até mais saiam uma carroça cheia de corpos para serem enterrados.

 

Agora presta atenção nas datas, sua fundação foi em 1903. mesmo tendo sido criado a mais de cem anos atras ele só se tornou conhecido na década de sessenta/setenta pelo tratamento desumano dos pacientes. Em 1961 o hospital que tinha somente duzentos leitos, abrigava mais de cinco mil pessoas!. 60.000 foi o número de pessoas que morreram dentro do Colônia. 

Mesmo com as reportagens e fotos mostrando os horrores do Colônia, ele demorou anos para ser fechado. Somente no fim dos anos 80 que ele foi realmente fechado. É um período do Brasil, aqueles que sabem preferem ignorar.

o livro é excelente e merecia um espaço em nossos registros históricos como uma forma de homenagem aos que morreram, uma forma de reparação para quem sobreviveu e uma forma de aviso para nosso futuro.








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